Todos os arquivos tem figuras interessantes. Você entra em um arquivo e já consegue ver os personagens principais daquele arquivo. Os que estão sempre ali. Os que dão vida ao arquivo. Os que mantém uma certa dinâmica no ambiente. Os que estão sempre em contraste com os outros pesquisadores comum, que estão ali, possivelmente, obrigados por algum trabalho acadêmico cujo interesse é zero.
Essa é a história do bêbado:
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Ele estava cabisbaixo, meio zonzo, mas não tirava os olhos do laptop e nem do documento.
-Senhooor... - Disse o funcionário, tocando-lhe o ombro.
-Gruhujgrunff...
- Senhor, estamos fechando.
- Daqui... daqui... daqui eu não saio.
- Você precisa, senhor. Está tarde.
- E-e-eu não vou sair. Me traz mais um documento. - Diz o bêbado, ainda cabisbaixo, sem tirar os olhos do documento, e sem olhar pra o funcionário.
- Eu não posso trazer mais nenhum documento, você precisa ir para casa, pode deixar que eu chamo um táxi para o senhor.
- Eu não quero táxi, com quem você pensa que está conversando? - vira-se o bêbado para o funcionário... olhando-o nos olhos e levantando a mão, com o dedo indicador bem levantado, como se tivesse invocando os grandes pensadores ocidentais e atemporais que todo mundo conhece...
O bêbado continua
-... você sabe de quem eu sou orientando?
- Não, senhor - Responde o funcionário, já mal-humorado. - ... e não me interessa seu orientador.
- ...
Dois minutos olhando atentamente nos olhos do funcionário.
- você tem sorte... você tem sorte d'eu não chamar meu orientador para vir aqui.
- Senhor, mesmo se ele viesse aqui, ele não entraria, estamos fechando.
- Pois não vai fechar não... eu sou dono desse cabaré!!.. eu tou pagando!!!
- você não paga nada, senhor. O serviço é gratuito.
- E aquele 1 euro que eu coloco no cacifo, todos os dias?
- quando o senhor abre o cacifo, senhor, a moeda cai e você a pega de volta.
O bêbado então, fica parado, seus olhos estão olhando pra frente, óbvio, mas ele ficou tão desligado, mas tão desligado, que mentalmente seus olhos estava olhando pra dentro. Depois de 1 minuto ele disse.
- Eu sabia... eu sabia que tinha algo estranho ali.
- Eu sei que é uma pena, senhor. Mas precisar ir embora
O choro começa a tomar conta da conversa.
- Você não tem coração, sabia? Seu monstro. Tudo que eu quero é só mais um documento.
- Mas senhor...
- Não... está tudo bem.. você tem que ir para casa. Para sua esposa, que te ama. Tudo bem... expulse o bebum, o divorciado. Ria de mim, só porque eu tomo banho aqui na pia do banheiro. Eu nem causo tanto constrangimento.
- Mas senhor. todos os dias você chega aqui 9:40 e só sai daqui 19:30... sua única pausa é para almoçar... ontem o segurança teve que te dar um golpe de karatê para você desmaiar.
O bêbado então pára de novo, e novamente olha para o seu interior.
- ... ........ Pensei que tinha caído no sono.
- Você sempre sai machucado, senhor.
- E daí?? e daí?? tem problema uma pessoa gostar de fazer isso que eu faço?
- Senhor, me desculpe, mas você precisa de ajuda.
- Esta me chamando de doente? está me chamando de doente??
Ele então se levanta da cadeira, cambalea... olha ao redor do arquivo, observa as mesas vazias, sem documentos, sem maços, sem jornais, sem livros... então...
Oh, caro leitor...
ele se joga nos ombros do funcionário e começa a chorar.
- Não me expulse, cara, por favor, eu imploro. Eu sou um viciado. Eu preciso de ajuda.
- Está tudo bem, senhor, vamos chamar um táxi, ligar para sua casa.
- Ei.
- Oi.
- Eu já te falei do GEAC?
- Sim senhor, ontem. É o seu grupo de Alagoas Colonial.
- Não... não... ... ... ... ... não.... não...
Maior característica do bêbado: negar uma vez, e ter a incrível capacidade de travar na negação. O engraçado é que nenhum bêbado consegue travar numa afirmação. Bêbado só consegue falar "não"...
- não... ... ... o GEAC é o grupo de estudos América Colonial. Aí.. dentro do GEAC de américa colonial tem o GEAC que é grupo de estudos Alagoas colonial. Entende? é diferente.
- Sim. Entendi.
Maior característica de uma pessoa sóbria conversando com um bêbado: dizer "sim" para tudo, para poder concordar com o bêbado em tudo e assim evitar os travamentos de "não" dos bêbados. Mas, é uma jogada arriscada, porque pode acontecer com um bêbado paranóico-carente. Daqueles que odeiam ser mimados. Pode ser uma armadilha.
Era uma armadilha.
- Não... não... não... você não entendeu.
- Eu entendi sim, senhor.
- não.. você só está falando isso para eu me sentir confortável e assim ir embora. Mas eu quero a saidera.
- Não pode, senhor... temos que ir embora, já estou aqui com o senhor faz 15 min.
- A saidera, meu amigo... vamos láááá... vamos láááaááá... eu pago.. você me acompanha no último documento?
- <>... está bem, qual o documento?
- Há... é isso aí... você é o cara... grande potência... cabra macho. Marrento. Gente fina. Presença. Arretado. Raparigueiro todo. Sangue-bom. Meu bróder. Meu peixe. irmãozinho...
- O senhor queria me desculpar, senhor. Mas eu não estou entendendo completamente nada do que você está falando. Por algum acaso você está me ofendendo?
Nisso, chega o gerente do arquivo.
- Que palhaçada é essa?
- Esse senhor estava paleografando, mas não quer ir embora.
- Ele volta amanhã, ora pois. Ele está aqui desde que horas?
- Hoje? desde às 10:13.
- Pois. Chame um táxi.
- EI... eii... não discutam entre si por minha causa. Pode deixar que eu vou embora. Não quero que pessoas tão legais como vocês briguem. Vocês... vocês.. vocês são meus amigos.
- Sim... sim.. volte amanhã, certo?
- Amo vocês, caras.
- Vai embora, bebum.. venha.. eu mostro a saída.
Então o gerente foi levando o bêbado até a saída... ouvindo o bêbado melancólico e solitário.
- eu posso voltar amanhã né?
- sim, pode sim.. infelizmente nossos incentivos culturais fazem desse lugar um espaço gratuito para a sociedade. Uma pena.
- amanhã você paleografa uma comigo, certo?
- Claro, claro... somos amigos, certo? amanhã iremos paleografar um documento juntos.
E ele voltou.
Essa história não é verídica.
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Próximo post. A história do monge que recita mantras indecifráveis enquanto caminha pelo arquivo com documentos debaixo dos braços e arrastando os pés durante o andar.